28 de mar de 2013

O legado de Herman Lundgren


Karla Lundgren

Orientador: Prof. Dr. Roberto Minadeo

INTRODUÇÃO

Com o incentivo do empresariado e a concordância do Governo Imperial, em meados do século XIX, processou-se uma significativa imigração de europeus para o Brasil. São Paulo foi o local preferido pela maioria daqueles imigrantes. Contudo, um pequeno núcleo se fixou na região nordestina, particularmente no Recife e na Paraíba. Vários imigrantes optaram por fixar residência no Brasil, modificando a idéia que trouxeram de seus países de origem, quando pretendiam fazer algum dinheiro na terra nova para voltarem à terra natal. Dentre esses que permaneceram no Brasil, adotando-o como nova pátria, destaca-se o sueco Herman Theodor Lundgren.


CHEGADA AO BRASIL

No começo do Segundo Império, por volta de 1855, Herman Lundgren desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, proveniente da Suécia. Não escolheu aquela cidade para fixar residência. Resolveu conhecer outras regiões do país. Esteve na Bahia e algum tempo depois viajava para o Recife, atraído pela bela paisagem da Veneza Pernambucana.

O dinamarquês Olsen, seu companheiro de viagem, o acompanhou inicialmente. Depois, transferiu-se para o Ceará, onde instalou a primeira casa fotográfica. Herman tinha 18 anos e falava outros idiomas, além do sueco. Depois de sua chegada ao Recife, percebeu que faltava um empreendimento que facilitasse a ligação dos navios que chegavam ao porto da cidade com os comerciantes locais. Então, montou um escritório de corretagem de navios. Com o seu conhecimento de idiomas, Herman servia de intérprete aos comandantes, tripulantes e passageiros procedentes da Europa e de outras partes do mundo. Em pouco tempo, o seu escritório passou a funcionar como um pólo de atração das outras colônias de estrangeiros com atividades mercantis e industriais no Recife, abrindo ao seu chefe perspectivas de prosperidade. Esse escritório estava situado na Praça da Lingüeta n.º 6, e era uma espécie de ship-chandler para fornecimento de víveres e massames para os barcos ingleses, holandeses, franceses, americanos, portugueses e de outros povos navegadores.


A FÁBRICA DE PÓLVORA

Apenas seis anos depois de sua chegada ao país, Herman Lundgren fundou em 1861 uma das primeiras fábricas de pólvora do Brasil, iniciando sua missão de pioneiro do progresso industrial do Nordeste.

Como corretor de navios, Herman havia observado que, dentre os fretes marítimos, havia uma crescente procura por pólvora industrial. Assim, ele optou por fabricar esse produto. O local escolhido para a implantação da unidade fabril foi o povoado de Ponte de Carvalho, no município do Cabo, próximo ao Recife. A estrada de ferro da Great-Western of Brazil (depois Rede Ferroviária do Nordeste) passava a pouca distância do terreno da fábrica, possibilitando o escoamento da produção. Foi preciso aterrar e sanear o terreno adquirido. Depois desses serviços, a área se tornou ideal para a fábrica de pólvora, pois era afastada de centros urbanos, proporcionando a segurança indispensável para esse tipo de atividade.

A fábrica de pólvora passou a prestar grandes serviços ao país, principalmente na Guerra do Paraguai. Ficaram encarregados da fabricação, os mestres de pólvoras, Srs. Hood e Williams Lodge. A chefia da parte mecânica foi confiada ao engenheiro sueco Karl Fred Holger e ao mestre brasileiro Ricardo de Holanda, e a gerência a Manoel Ferreira de Macedo.

Em 1870, Herman Lundgren naturaliza-se brasileiro. Ana Elizabeth Stolzenwald, dinamarquesa, nascida em 1847, encontrava-se no Recife, sendo professora particular de idiomas dos filhos do empresário Tomás Ferreira de Carvalho. Seus alunos alcançaram grande notoriedade, tornando-se o historiador Alfredo de Carvalho e o médico Tomás de Carvalho. Herman Lundgren e Ana Elizabeth se casaram em 1876. Tiveram cinco filhos: Herman Lundgren Júnior, Frederico João, Guilherme Alberto, Arthur Herman e Ana Louise.


OUTRAS REALIZAÇÕES

A indústria de pólvora atingira a estabilidade com a pólvora "Elefante", conhecida e procurada em todo o Brasil. Frederico, seu filho mais velho, ao voltar dos estudos na Europa, foi designado para escolher agentes e instalar depósitos de pólvora na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas. Para o transporte da pólvora Elefante e suprimento dos diversos depósitos em todo o país, Herman Lundgren adquiriu uma frota de veleiros, pois os navios nacionais não aceitavam a pólvora como carga.

Antes de sua chegada ao Brasil, Herman Lundgren sempre foi um interessado em estudar as obras dos naturalistas europeus sobre as variedades vegetais do Novo Mundo. Foi assim que se tornou conhecedor da carnaúba, passando a exportar cera de carnaúba para o exterior, no final do século XIX, pois tinha certeza que esse produto teria um largo consumo na Europa. A carnaubeira é uma planta de grande longevidade, podendo chegar a 200 anos. Industrialmente, ela foi utilizada na preparação de discos para gramofone, preparo de papel carbono, polidores e vernizes para automóveis, cera para assoalhos, embalagens impermeáveis, isolantes, velas, etc. Segundo dados do Boletim do Serviço de Estatística Econômica e Financeira do Ministério da Fazenda, as exportações de carnaúba datam de 1914, com 3.316 toneladas, chegando a 1957 com 11.976 toneladas.

Outro item exportado à Europa eram peles de animais, como a de cabra. O sertanejo Delmiro Gouveia percorria todo o interior nordestino, comprando peles por conta de Herman Lundgren. Sempre atento ao mercado nacional, Herman Lundgren percebeu que o país importava grandes quantidades de sal, proveniente de Cádiz e Cabo Verde, porque o sal nacional era desacreditado quanto a sua pureza e resistência. Foi, então, que resolveu intervir, reagindo contra as autoridades e os salineiros, pois estes estavam conformados com o estado de penúria em que se encontravam. Diante do quadro de prejuízo, para a indústria salineira, resolveu, então, mandar examinar o sal de Macau e Areia Branca por um técnico de renome em Londres. E a resposta foi positiva, isto é, o sal não era inferior ao de Cádiz. Diante disso, Herman levou alguns meses para convencer os industriais do Rio Grande do Sul de que não havia mais necessidade de importar o sal de outros países. Vencidas as primeiras dificuldades, entrou em entendimento com os salineiros potiguares Francisco Tertuliano de Albuquerque e Alexandre Manoel de Souza Nogueira, para que estes garantissem o contrato com o Sul. Começou vendendo para o Sul e, aos poucos, as importações foram diminuindo.


A INDÚSTRIA DE TECIDOS DE PAULISTA

A indústria têxtil em Pernambuco apresentava-se incipiente, desordenada com a utilização de métodos rudimentares e máquinas antiquadas. No período de 1900 - 1904, Herman Lundgren, com a cooperação de seus filhos já rapazes - Herman, Frederico, Alberto e Arthur - partiu para a indústria têxtil. Começou comprando ações da Companhia de Fiação e Tecidos de Goiana. Mas, os acionistas, temendo uma maior participação do arrojado industrial, negaram-lhe mais ações. Isto levou Herman Lundgren a revender suas ações aos que receavam seu controle, entretanto, não desistiu do seu projeto.
Logo em seguida, soube da precária situação financeira da Fábrica Paulista, no município de Olinda e entrou em entendimentos para a aquisição da maioria das ações da empresa, controlada pela Rodrigues Lima & Cia. Assim, surgiu o caminho para progredir na indústria têxtil. Distando do Recife cerca de 30 quilômetros, Paulista possuía uma pequena fábrica de tecidos e uma miserável população subnutrida, alojada em palhoças. A expressão "Paulista" surgiu do engenho que pertencera ao Mestre de Campo Manoel Alves de Moraes Navarro, depois de 1689, natural de São Paulo, que viera para a conquista do Quilombo dos Palmares.

Ao assumir a fábrica de tecidos em 1904, Herman tratou de melhorar as condições de vida daquelas pessoas. Colocou seus filhos à frente do empreendimento, sob sua supervisão. E, teve como primeira medida, a construção de uma vila de casas de tijolo e telha, em substituição às miseráveis palhoças que alojavam o operariado e suas famílias. Herman Lundgren Júnior foi eleito, em assembléia geral, para o cargo de diretor tesoureiro da Cia. de Tecidos Paulista. Posteriormente, Frederico Lundgren assume as funções de diretor tesoureiro e superintendente de toda a administração e da fábrica.

O velho Lundgren adquiriu, em 1905-6, uma usina de açúcar - a Usina Central de Timbó, uma das primeiras usinas de Pernambuco, nas proximidades da Fábrica Paulista e confiou a sua direção ao seu filho Arthur. Após a morte de Herman, seus herdeiros desmontaram a usina, vendendo a maquinaria.

A pequena fábrica de tecidos, sob a direção de Herman Lundgren e seus filhos, foi adquirindo um aspecto bem diferente. As máquinas obsoletas foram substituídas por máquinas modernas trazidas da Inglaterra. Esse novo quadro levou ao seu aumento de crédito nos bancos. Assim, Herman Lundgren foi estimulando os outros industriais de tecidos a melhorarem suas instalações, assim como as condições de vida de seus operários.

Às sextas-feiras Herman distribuía auxílios aos necessitados, e nesse dia seus escritórios lotavam com homens, mulheres e crianças, que eram atendidos pessoalmente por ele. Eram mal alimentados e dotados de doenças, como: impaludismo, bouba, bexiga, bubônica. Com a distribuição de remédios aos doentes e a construção de casas mais higiênicas, foi-se aos poucos observando uma melhora nos operários, mostrando-se mais dispostos e com maior assiduidade no trabalho.


O CULTIVO DA PALMA SANTA E A PARTICIPAÇÃO NA POLÍTICA

Após a seca de 1877, Herman se interessou pelo cultivo da palma santa. Para isso, entrou em contato com o sábio norte-americano no assunto, o botânico Burbanks, e importou do Texas/EUA mudas desse cactáceo. A partir daí, passou a metodizar o cultivo dessa planta no litoral e na zona da mata de Pernambuco. Dessa época até nossos dias, essa planta constitui a base de criação dos rebanhos e prosperidade dos fazendeiros do Nordeste, pelas suas reservas alimentares, principalmente nos períodos de seca.

Herman Lundgren teve também um envolvimento na campanha abolicionista, apoiando figuras de destaque nacional do porte de Joaquim Nabuco e José Mariano. Após a Proclamação da República, no governo de Floriano Peixoto, Herman Lundgren percebeu a necessidade de apoiar politicamente o Governador de Pernambuco, Alexandre José Barbosa Lima, que enfrentava uma forte reação dos usineiros locais que não aceitavam a implementação de um programa econômico para aquele Estado.


MUDANÇA DE DIREÇÃO DAS EMPRESAS

Aos 72 anos de idade, em fevereiro de 1907, vítima de um ataque cardíaco, faleceu Herman Lundgren. Sua família, herdou as fábricas de pólvora e de tecidos, além das empresas de exportação e importação.

Os herdeiros, em comum acordo, designaram Arthur Lundgren para dirigir a Fábrica de Pólvora e Frederico João Lundgren para dirigir a Companhia de Tecidos Paulista e também supervisionar todos os negócios, fossem eles de natureza comercial ou industrial.

Frederico Lundgren mostrou-se preparado para substituir seu pai na direção das empresas. Sob seu comando, foram incorporadas ao patrimônio da família a Companhia de Tecidos Rio Tinto, na Paraíba, e a Companhia Têxtil Santa Elizabeth, em Belo Horizonte. As três fábricas passaram a constituir o maior parque de indústria têxtil do país.


AS NOVAS GERAÇÕES

Herman e Ana Elizabeth tiveram cinco filhos: Herman, Frederico, Guilherme, Arthur e Ana Louise. Todos foram enviados à Europa para complementarem os seus estudos. Herman Lundgren Júnior era o mais velho dos filhos. Por opção própria, afastou-se da direção dos negócios da família. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde constituiu uma firma particular. Casou-se com D. Elizabeth, deixando apenas uma filha, Anita Lundgren, que veio a se tornar acionista das empresas. Faleceu em 1953.

Guilherme Alberto Lundgren trabalhou na Fábrica de Pólvora de Pontezinha, desempenhando a função de contador. Dedicava-se à música e à zootecnia. Passou a criar gado leiteiro, chegando a possuir uma das maiores fazendas de criação nos Estados da Paraíba e do Espírito Santo. Casou com a Sra. Theresa Matilde e tiveram dois filhos: Alberto Theodor e Arthur Axel, que se tornaram acionistas das empresas Lundgren e ocuparam cargos de direção nas firmas sediadas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Ana Louise Lundgren Groscke - sendo a única filha do casal e, ainda, a mais nova, recebeu uma atenção redobrada dos pais. Estudou música e pintura. Passava grande parte do ano na Europa, quase sempre na companhia dos pais. Teve uma filha, de nome Helena.

Frederico João Lundgren era o que demonstrava maior pendor para substituir o pai na direção dos negócios. Conseguiu expandir o patrimônio da família e manteve-se na direção das empresas até o seu falecimento, em 1946. Era um apaixonado por turfe e por rinhas de galo. Casou-se com Laura de Souza Leão Passos, não tendo filhos. No entanto, Frederico teve vários filhos fora do casamento, registrando todos em cartório e assumindo a criação e a educação dos mesmos.

Arthur Lundgren desde 1907 acompanhava a administração dos negócios da família. Com a morte do irmão Frederico, assumiu o controle de todo o grupo. Prosseguiu expandindo as empresas, tornando-as conhecidas e respeitadas em todo o país. Casou-se com D. Elisa.


A EXPANSÃO DO PATRIMÔNIO

Depois da fábrica de pólvora de Pontezinha, o patrimônio da família expandiu-se a partir da Fábrica de Tecidos Paulista. Adquirida em 1904, essa fábrica era muito acanhada, representando muito pouco no setor industrial têxtil. Quando Frederico Lundgren assumiu a direção geral das empresas, houve um progresso de tal ordem na fábrica que, em 1909, ela já possuía a maior estamparia do Norte-Nordeste brasileiro. Uma das lições deixadas pelo pai foi a opção pela técnica ao empirismo, e todas as iniciativas eram tomadas com base em consultas a técnicos e especialistas no assunto. A qualidade dos tecidos, com seus estampados de cores indestrutíveis e sua famosa marca "Olho", atraía comerciantes interessados de vários mercados do Brasil.

Enquanto isso, Herman Lundgren Júnior que havia sido desligado da Companhia de Tecidos Paulista se fixou no Rio de Janeiro, onde constituiu a firma Teltcher Lundgren & Cia. Até 1913 ficou, ainda, como representante da Companhia de Tecidos Paulista e da Usina Central de Timbó. Nas casas que fundou, denominadas "Cooperativas" tinha a intenção de vender ao público carioca os tecidos marca "Olho" da Paulista, mas logo desistiu, pois Frederico João Lundgren já os vendia nos balcões das Casas Pernambucanas.

A opção adotada pelos Lundgren de venderem os seus próprios tecidos mostrou-se bastante acertada. No Nordeste, e em particular no Estado de Pernambuco, foram criadas as "Lojas Paulista", que oferecia ao público os tecidos da própria Fábrica de Tecidos Paulista. Por volta de 1916, em São Paulo, foi inaugurada a primeira loja Pernambucanas. Por vários anos, a família Lundgren manteve esses dois nomes-fantasia: "Paulista" em Pernambuco e "Pernambucanas" no resto do país, só unificando-os como Casas Pernambucanas na década de setenta. Primando pelo preço baixo e pelo bom atendimento, as Pernambucanas conquistaram uma clientela fiel, tornando-a uma das maiores redes de comércio varejista do Brasil.

Mesmo detendo o status de maior parque têxtil do Nordeste, houve a necessidade de ampliar a fabricação, criando novos centros como a fábrica em Rio Tinto, na Paraíba. Para a construção dessa fábrica, foi elaborado um minucioso planejamento estratégico, prevendo o surgimento de uma nova cidade ao redor da indústria. Em 1918, os Lundgren adquiriram o terreno para a construção da fábrica. Era uma colônia de pescadores, um local afastado do centro, sem nenhuma infra-estrutura, pertencente à cidade de Mamanguape/PB. No ano de 1924, o projeto foi concluído, iniciando-se a fabricação de tecidos na Paraíba. Anos depois, em 1956, o planejamento inicial se confirmou: aquelas terras desmembraram-se do município de Mamanguape, surgindo a cidade de Rio Tinto.

Esse casamento de indústria com o comércio vinha fortalecendo o grupo Lundgren. Nos anos trinta, conhecedores da máxima de que a propaganda é a alma do negócio, mais uma vez demonstraram o espírito empreendedor da família, desencadeando uma forte campanha de publicidade alternativa. Passou-se a pintar pedras e barrancos nas estradas brasileiras, bem como porteiras de fazendas, com mensagens e o nome da Pernambucanas.

Com a morte de Frederico Lundgren, em 1946, seu irmão Arthur assume o controle de todo o grupo e continua a expandir o patrimônio da família. Aproveitando o estímulo à industrialização, patrocinado por Juscelino Kubitschek, Governador de Minas Gerais, o grupo Lundgren inaugurou mais uma fábrica de tecidos, em 1955, nas proximidades de Belo Horizonte. Essa moderna unidade recebeu o nome de Companhia Têxtil Santa Elizabeth, juntando-se às duas outras fábricas da família.

Com a descoberta de minério de fosfato nas terras da Companhia de Tecidos Paulista, Arthur Lundgren inaugurou uma fábrica de fosfato e fertilizantes, sendo uma das primeiras implantadas no Nordeste. A família também se dedicou à agricultura e pecuária em suas terras. Finalmente, para facilitar as vendas a crédito nas Casas Pernambucanas, foi criada uma agência financeira, que enfrentou fortes problemas no período de descontrole econômico do país.


AS DIFICULDADES DO GRUPO

As dificuldades do grupo Lundgren deveu-se, entre outros, a dois fatores bem distintos. O primeiro, decorrente de problemas judiciais envolvendo questões de herança. O segundo, comum a várias empresas que enfrentaram os sucessivos altos e baixos da economia brasileira nas últimas décadas. Frederico João Lundgren teve vários filhos fora do casamento. Todos eles foram reconhecidos e registrados em cartório, gerando direitos de herança após a sua morte no ano de 1946.

Por exemplo, um desses ilustres descendentes é a empresária Regina Lundgren, filha de Nilson Nogueira Lundren e Eliane Machado. Obteve sucesso na área da moda com uma loja no Shopping Fashion Mall, no Rio de Janeiro. Em 2004, abriu o Espaço Lundgren, em Ipanema, reformando um casarão antigo, e passando a abrigar marcas de luxo, aspirando à possibilidade de repetir no Rio de Janeiro o sucesso da butique Daslu da capital paulista.

Arthur Lundgren, ao assumir a direção dos negócios da família, não permitiu que os filhos de Frederico tivessem participação acionária nas empresas. Tal posicionamento forçou uma ação judicial, que foi ganha pelos descendentes de Frederico no ano de 1973. Os herdeiros de Arthur, de Alberto, de Ana Louise e de Herman Júnior utilizaram serviços de diversos escritórios de advocacia, conseguindo protelar a decisão judicial já referida.

Finalmente, no ano 2000, os herdeiros de Frederico Lundgren obtiveram um acórdão favorável do Superior Tribunal de Justiça, não possibilitando mais qualquer recurso da outra parte. O passo seguinte será a designação de peritos, pelo Juiz da Comarca de Paulista, para relacionar os bens atuais de todo o grupo, de forma a permitir uma nova partilha dos bens.

Os efeitos da economia brasileira sobre os negócios do grupo foram devastadores. Inicialmente, as fábricas de tecidos foram fechadas, devido aos elevados custos da matéria-prima e às restrições às importações, tornando-as obsoletas. Outro aspecto que acelerou o fechamento das indústrias de tecidos foi o sucesso do ramo comercial do grupo. Por mais paradoxal que aparente, os lucros das Casas Pernambucanas desestimularam a continuação do ramo da indústria de tecidos. As lojas ampliaram o leque de produtos oferecidos ao público, passando a vender eletrodomésticos, eletrônicos, roupas e tecidos. Esses produtos eram comprados de outros fornecedores, em condições mais favoráveis, levando ao fechamento das fábricas de tecido.

Para atrair clientes, foi criada uma agência de financiamento direto, ligada às Casas Pernambucanas. Na época de altas taxas inflacionárias, a maior preocupação era com a parte financeira da empresa. Com isso, princípios básicos de gerenciamento introduzidos por Herman Lundgren foram descurados, acarretando custos elevados de estoque, aliados a uma grande inadimplência por parte dos clientes. Essa situação culminou com o fechamento de várias lojas por todo o país, mantendo-se uma estrutura menor, com presença reduzida a alguns estados da federação.


SITUAÇÃO RECENTE DO GRUPO

O grupo varejista chegou a se dividir em três companhias distintas, todas atuando com a marca Pernambucanas, porém com diferentes composições acionárias. Como atuavam em regiões distintas, não havia concorrência direta entre elas. Em meados dos anos 80, as três redes somavam um faturamento anual por volta de US$ 1,5 bilhões. Porém, no início dos anos 90, a rede do Norte e Nordeste foi adquirida pela rede sediada no Rio de Janeiro. Esta, por sua vez, veio a enfrentar uma situação de concordata por duas vezes, vindo, finalmente, a encerrar as atividades. Assim, permaneceu ativa apenas a rede sediada em São Paulo.

No ano 2000, a Arthur Lundgren Tecidos S/A - Casas Pernambucanas é uma sociedade anônima de capital fechado, com sede em São Paulo, com 240 lojas distribuídas em São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Triângulo Mineiro, parte sul de Minas e Santa Catarina. Cerca de dez mil funcionários trabalham no grupo.

A empresa somava 2,2 milhões de cartões de compra ativos, sendo que 70% das vendas eram no crediário, e o ticket médio girava em torno dos R$90. As vendas de cortes de tecido continuavam, porém respondiam por não mais de 10% das receitas da rede. Por outro lado, a venda de eletrodomésticos já era importante, sendo a Pernambucanas a sétima rede mais importante na venda dessa linha de produtos no país.

A empresa estava com um razoável grau de informatização, com todas as lojas ligadas em rede ao escritório central, e um centro de distribuição automatizado na movimentação de produtos.

Nesse ano, haviam sido feitos investimentos de R$ 58 milhões para a abertura de 16 novas lojas. Desse modo, era prevista uma receita de R$ 1,3 bilhões no ano, cerca de 18% superior à do ano anterior.

Em 2001, a empresa apresenta lucros de R$ 14,23 milhões - valor que sobe para R$ 17,5 milhões no ano seguinte.

No ano de 2005, a rede, com 238 lojas, faturou R$ 2,8 bilhões, e teve lucro de R$ 51,2 milhões - o mesmo de 2004.


BIBLIOGRAFIA


A Sobrevivente. Exame. 1/11/2000.

Góes, Raul de. Um sueco emigra para o Nordeste. Rio de Janeiro, ed. José Olímpio, 1964.

Mercado Carioca se sofistica com Lojas de Moda e Eletrodoméstico. O Globo. 30/10/2004.

Pernambucanas reage à Concorrência de Fora. Gazeta Mercantil. 6/10/2000.

Pernambucanas se rende ao comércio eletrônico. Isto é Dinheiro online. 26/04/2006.

Site da Casas Pernambucanas.

Fonte: 
http://www.oocities.org/wallstreet/exchange/4642/estrategias/case5_Lundgren.htm

5 comentários :

Ortsnamenblog disse...

Desmistificação: Anna Elisabeth Stolzenwald, * 14 de janeiro de 1847, Barmstedt, Holstein (Alemanha) - † ca. de 1932 Recife (Pernambuco) nunca foi súbdita do Reino da Dinamarca, mas simples súbdita do rei da Dinamarca enquanto soberano do Ducado do Holstein. Este ducado como estado autónomo sempre pertenceu ao Sacro Império Romano Germânico, até este Império ser dissolvido por Napoleão Bonaparte em 1806. Em 1815 o Ducado do Holstein passou a pertencer à Confederação Germânica, portanto nunca foi território do Reino da Dinamarca para que os seus habitantes autóctones pudessem de alguma forma ser considerados dinamarque-ses. Este equívoco de atribuição de nacionalidade errada começou em 1964 após a publicação do livro “Um sue-co imigra para o Nordeste Brasileiro” escrito por Raul de Goes. Anna Elisabeth Lundgren deve ser considerada teuto-brasileira, teuto porque nasceu em território alemão e brasileira por ter adquirido a nacionalidade brasi-leira pelo casamento que era naturalizado brasileiro desde 1870.

Prof. Karla Inez Leitão Lundgren disse...

Este trabalho, o considero de extrema relevância. Tanto pela divulgação de um grande empreendedor, como pela contribuição para as áreas da economia da inovação e do empreendedorismo.
A autora: Karla Inez Leitão Lundgren

ADRIANO GUEDES CARNEIRO disse...

Prezada Professora Karla Leitão Lundgren,

Agradeço imensamente o seu comentário e principalmente agradeço a sua pesquisa e texto que fizemos publicar aqui no blog. Além do resgate histórico, em todas as suas vertentes, as informações contidas no texto tem sido fundamentais para a realização de um sem número de outras pesquisas.
Muito obrigado!

Anônimo disse...

Profa. Karla Inez Leitão Lundgren o seu trabalho descrevendo o “O legado de Herman Lundgren” realmente é de extrema importância para a área de economia e história do empreendedorismo no Brasil, parabéns pela riqueza de detalhes, porém, para que a história seja descrita em todo seu conteúdo acredito que seria interessante acrescentar mais detalhes do legado de Guilherme Alberto Lundgren que, assim como Frederico João Lundgren, teve também vários filhos fora do casamento, alguns reconhecidos judicialmente e outros não.

Waldísio Araújo disse...

Muito boa a pesquisa, rica em detalhes. Meu pai trabalhou por um ano para as Lojas Paulista na década de 50, numa loja em Senhor do Bonfim, Bahia. obrigado pela informações.